6 de janeiro de 2009

baião inacabado para a suely do céu

o dia amanheceu de relho em punho e mulher se ensimesmou
começou jornada rija de acabrunho e má-fé se anunciou

foi procurar fazer da vida ramo de maxixe, sem prumo e sem hora
ainda antes que menino espiche feito capinzal que aflora

convocou cobiça crua de jagunço e de moço
e sem pecado ofertou, de maldade nua, o seu eu muy hermoso.

hoje o céu me chamou para olhar para a eternidade e uma estrela travessa me piscou.

seresteiro

seresteiro é pinho que chora cantiga de roda em verso de moda violeira e canta feito sabiá,
daquele um que pia cá feito não pia lá.

é menino moço que tem sabença de menino velho de riacho ou coisa assim,
do tempo que fogão era de lenha e era festê o gurufim.

é que nem o chorar da flauta que enche o peito de homem feito:
chega e toma da viola a canção sentida que ela escondia do ponteio.

é igualzim gosto de café depois de um trago e cheiro de chão molhado de chuva
que cai de agrado fosse véu vindo do céu.

quiçá seja de fiar pano pra confiar à menina como quem tece por sina trama leve,
fosse trama brisa praiana, de enfeitar coroa de andor.

à meio-mar


à meio-mar os pensamentos me desvestem a alma
ribeirinha, se doa à luz que sobra na água e entoa um silêncio de canção.
no hiato entre o tempo e a brisa
volto a ser cria de pescador de lenda pueril
de peixe, de rede, de pé no chão.
ao vento acabrunhado entrego um ou dois pedidos.
onda faz que sim com o arrebento e me acata o talvez, em vão.


de quando em quando mar inteiro me desmanda fosse santo calejado de súplica.
Janaína me acalanta, me afaga o peito, me encanta.

eu canto.

acróstico inocente para a minha pasárgada

Lá, em cabana de menina,
Olho o céu.
Nas certezas de uma tal sina,
De um tal lampião que só ilumina,
Rezo às seis, bem na surdina.

Intransitivamente,
Nessa terra eu sou.
Amém!

3 de janeiro

o vento corre de lá, bate em mim e se espalha;
e eu não me mexo.

o vento me bagunça, desajeita a saia e as idéias;
e eu não me mexo.

o vento, às vezes, é brisa mansa: acarinha, acomoda.
ainda assim, eu não me mexo.

o vento-brisa me convida e eu não vou.

o vento forte me intimida e eu não cedo.

o vento "são" meus extremos.

2 de janeiro

perverso é o tempo sem verso.
é o vento sem tempo,
é o mar sem o vento.

inverso é de dentro do verso.
este, por sua vez, voa submerso em águas calientes,
carentes de mágoas.

reverso é o verso de novo, o rondó-senhor:
rima soberana,
mãe das quadrinhas e das trovas de dor.

2 de novembro de 2008

aquela eu

aquela mulher de vestido verde musgo que me tornaria se encontrou comigo e
me aconselhou a ter prudência. disse que essa mania, quase vício, de me conhecer
mais que a qualquer coisa ainda me roubaria de mim. eu, jovenzinha, sabedora do
mundo e dos meus próprios saberes, não lhe dei ouvidos.
então decidi, como quem escolhe entre tomates maduros ou verdes numa feira, que esquecê-la-ia. e o fiz. até agora quando um cheiro de café me lembrou dos olhos daquela eu. à lembrança, então, me veio a aparência jovem e o sorriso feliz.
era ela eu?
não sabemos.

28 de agosto de 2008

...

"Aprendi com Rômulo Quiroga:
A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado. A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro.
Arte não tem pensa: o olho vê, a lembrança revê, a imaginação transvê o mundo.
Isto seja: Deus deu a forma. Os artistas desformam.
É preciso desformar o mundo [...]."

Manuel de Barros

23 de agosto de 2008

condições

se é imensa a solidão, eu canto
se o só é a imensidão, é por enquanto
e se, no entanto, eu ficar a esmo
é de acalanto em acalanto que saio de mim mesmo.

se é manso o perdão, aceito
se me perdoam a mansidão, respeito
mas se, de fato, eu quiser sair
é em prosa e terço que consigo fugir daqui

Oxalá fosse grande o bastante esse adentro pra compensar o de fora
Oxalá fosse mais tímido esse tal de agora pra chegar logo lá dentro

21 de agosto de 2008

mal hábito

entre a minha pele e o mundo tem um gelo, um tal de jalousie intenso que me rouba de mim.